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“Working anywhere” no novo normal

Em poucos meses todos nossos planejamentos para 2020 e para os anos seguintes simplesmente viraram pó. O COVID jogou tudo fora. Empresas aéreas que planejavam crescimento da frota, a estão reduzindo e demitindo tripulações. Os grandes e luxuosos escritórios empresariais ficaram vazios e muitas empresas não voltarão a ocupá-los como anteriormente. O conceito tão falado e debatido em palestras sobre as mudanças rápidas dentro de um mundo VUCA (Volátil, incerto, complexo e ambíguo) saíram do PowerPoint para o mundo real. Hoje não conseguimos fazer um plano de negócios que seja sustentável para os próximos seis meses. Teremos vacina? Teremos novos surtos? É o mundo VUCA em sua essência.

O grande desafio para as empresas é como voltar aos negócios no mundo pós-COVID e principalmente no pós pós-COVID. Dificilmente voltaremos ao que era antes. A sociedade humana não evolui em uma linha reta e contínua. De vez em quando uma mudança brusca redireciona e transforma toda o contexto. Estamos passando por um momento de destruição criativa. Como o século 20 começou na prática após a Primeira Guerra Mundial e a gripe espanhola, com mudanças provocadas na geopolítica, processos e organizações empresariais, o século 21 não começou em 1 de janeiro de 2001, mas está começando agora.  

A quarentena forçada mudou a rotina da sociedade. Quebrou conceitos e hábitos arraigados. A obrigatoriedade de ida diária ao escritório se mostrou desnecessária. É possível trabalhar e de forma eficiente de casa. Isso significa que não voltaremos a ter escritórios? Isso significa que o contato humano será eliminado? Absolutamente não.  Os encontros presenciais continuarão a existir. Somos seres sociáveis por natureza. Pacientes com necessidades complexas ainda irão pessoalmente consultar seus médicos, e muitos tipos de trabalhos não são automatizáveis. Mas as tendências provavelmente são irreversíveis. Tarefas operacionais de execução podem ser perfeitamente serem efetuadas remotamente. Mas provavelmente as que demandam criatividade, inovação e colaboração continuarão a ser presenciais. Colaboração e criatividade são incentivadas quanto as pessoas interagem diretamente. Muitas atividades demandam contato presencial, mas ao invés de obrigatoriedade, as idas aos escritórios serão espaçadas e quando essenciais. O trabalho será “working anywhere”. 

O crescimento do online para todas as nossas atividades vai incentivar o que podemos chamar de “contactless economy”. O comportamento do consumidor mudou. O online já se tornou lugar-comum. O delivery de alimentação, as compras on-line, as transações financeiras via apps, a telemedicina, aulas online e videoconferências se tornaram rotina. Hoje, já é possível imaginar um mundo de negócios – do chão de fábrica ao consumidor individual – no qual o contato humano é minimizado. Mas isso significa que o contato humano será eliminado? Não!  Para muitas pessoas, voltar ao normal incluirá entrar novamente nas lojas e supermercados. O online e o offline conviverão. A escolha será sempre do consumidor, agora, mais que nunca, mais empoderado. Os mundos online e offline vão se entrelaçar. Tony Ma, fundador da chinesa Tencent explica isso de forma clara: ”There will be no purely internet-only companies because the internet will have spread to cover all social infrastructure; nor will there be purely traditional industries because they will have grafted onto the internet”.

Para sobreviver neste cenário de negócios onde a única normalidade é a incerteza e a mudança contínua, quando tudo o que puder ser digitalizado o será, as empresas precisam ser ágeis, rápidas, adaptáveis e elásticas. Os planejamentos para 2 ou 3 anos, passam a semestrais. As tomadas de decisão que antes demandavam meses, agora passam a ser semanais.

Os modelos de negócio e de operação precisam ser ajustados de forma muito mais acelerada. Em um mundo cada vez mais digital, as fricções tendem a desaparecer e com menos atritos, as coisas se deslocam muito mais rapidamente.

A competição se acelera e os competidores aparecem de todos os lados. Não tem mais sentido olhar apenas para seus concorrentes diretos, dentro do que convencionalmente classificamos como setores de indústria. As fronteiras entre os setores tendem a desmoronar e seu clientes de hoje podem ser seus principais competidores amanhã. 

As regulações provavelmente serão revistas. A crise provocou a necessidade de mudanças em muitos aspectos regulatórios, como aqui no Brasil com o uso da telemedicina. A educação também deverá ser revista. Um recente relatório do World Economic Forum, “Schools of the Future”, mostrou que o Brasil está muito atrasado e despreparado para competir no novo mundo que se desenha. O “novo normal” será diferente do que estamos habituados e as habilidades e capacitações para este novo mundo, cada vez mais digital, ágil, incerto e resiliente, demanda uma mudança radical na educação. A regulação terá que permitir essas transformações e agilidade no sistema educacional.

A educação merece atenção especial.  O nosso sistema educacional foi projetado para atender às demandas do modelo econômico e organizacional da sociedade industrial, consolidada durante o século 20. Não está preparada para atender às demandas da era digital do século 21. Querem um exemplo? Façamos uma analogia com uma fábrica e sua linha de produção, símbolo da sociedade industrial.  O processo começa com a chegada da matéria prima, que é fabricada pela linha de produção, finalizando com produtos acabados e padronizados. Uma típica linha de produção em massa. Os produtos que falham nos critérios de qualidade são desmanchados e retornam ao início da linha. Na escola o processo é similar. Pegamos a matéria prima, nossas crianças, e as moldamos para saírem padronizadas no final da linha de produção, em carreiras encaixotadas como engenheiros, advogados e médicos. Todas as que não se encaixam no modelo, ou sejam, tem comportamentos fora do padrão, são retiradas da escola.  O modelo educacional atual trata os diferentes de forma padronizada, inibe criatividade e inovação. É uma verdadeira linha de produção padronizada. Limita o senso crítico. Sugiro ver uma incrível palestra no TED sobre o assunto, aqui.

No mundo pós-COVID veremos uma adoção crescente da IA. O impacto da IA na transformação da sociedade pós-COVID começa aos poucos a ser mais compreendido. Uma dose mínima de inteligência aplicada a um processo ou a objetos vai elevar a eficácia de qualquer sistema a outro patamar.  IA será a força primordial de competividade no futuro. E aliás, já estamos no ponto de inflexão, onde a IA vai se acelerar de forma exponencial. IA será a nova eletricidade. Vai dar vida a objetos inertes, como a eletricidade fez mais de um século atrás. Nas próximas décadas vamos cognificar aquilo que eletrificamos no passado.

A sobrevivência em um mundo em contínua mudança depende da rapidez com que a empresa identifica sinais esparsos e consegue fazer uma imagem do que eles significam. Em um mundo onde geramos 33 zettabytes anualmente (um zettabyte é um trilhão de gigabytes ou um trilhão de bilhões de bytes) e em 2025 este número deverá chegar a 175 zettabyttes, se não tivermos capacidade analítica de analisar estes sinais e preditivamente agirmos, a sobrevivência empresarial estará ameaçada. Na sociedade industrial o combustível era o petróleo e a força motriz constituída de motores à combustão interna e eletricidade. Na era digital o combustível são os dados e os motores são os algoritmos de IA.  

A crise de 2008 acelerou a disseminação da computação em nuvem. Hoje ela é pervasiva e não se discute mais sua aplicabilidade. Negócios inteiros são dependentes de nuvem, como Netflix e Zoom, apenas para citar alguns nomes que estão em evidência na crise da pandemia.  O pós-COVID será o momento de inflexão da aceleração da IA. 

A própria pandemia tem nos mostrado, na prática, a importância da utilização da IA. A IA tem sido uma ferramenta poderosa de apoio, embora muitas vezes passe desapercebido por quem lê as notícias sobre o assunto.  Com IA o processo de fabricação de novas drogas é acelerado exponencialmente e os custos caem em ordens de magnitude. 

Por outro lado, toda crise e consequente recessão econômica acelera o processo de transformação da força de trabalho. O grau de impacto da IA no contexto do trabalho no pós-COVID divide opiniões. O tema é intensamente debatido e não se tem respostas definitivas. Existe a corrente otimista que acredita que, como a sociedade humana já passou por revoluções antes, como a industrial, e no longo prazo gerou-se mais trabalho que antes, o fenômeno se repetirá naturalmente. Na revolução industrial, empregos foram destruídos no curto prazo, mas no tempo, outros em maior número surgiram. Os cocheiros perderam seus empregos, mas hoje existem milhões de motoristas. E existe uma corrente mais pessimista, que aponta que, com os efeitos econômicos do COVID já existem evidências claras de uma crise social, que será inevitável, a menos que a sociedade atue com seriedade e urgência para mitigar seus efeitos. No pós-COVID e no pós pós-COVID qual será o papel da IA na sociedade? Os robôs substituirão pessoas? As pessoas que executam tarefas repetitivas verão estas tarefas serem substituídas por robôs. Mas, o mais provável é que a IA venha a aumentar o desempenho humano, automatizando certas partes de uma tarefa, permitindo que os indivíduos se concentrem em aspectos mais “humanos” que exigem habilidades empáticas, sociais e inteligência emocional. No futuro próximo, trabalhadores e máquinas trabalharão em conjunto, cada um complementando os esforços do outro. As organizações de RH terão que desenvolver novas estratégias e ferramentas para recrutar, gerenciar e formar uma força de trabalho híbrida humano-máquina. É uma mudança significativa nas formas de como RH seleciona, contrata e avalia profissionais. Demanda uma redefinição das funções atuais e a acomodação de novas funções, que nem existem hoje no vocabulário de RH. Dado a forma como os modelos de trabalho tradicionais, definições de carreira e o setor RH estão arraigados, a reengenharia do trabalho em torno da IA será um grande desafio. Vai demandar novas formas de pensar sobre empregos, cultura empresarial, tecnologia e, mais importante, pessoas. Aliás, RH provavelmente vai significar Robôs e Humanos.

Muitas empresas estão tentando ajustar os detalhes para seus planos de retorno, em vez de desenvolver os recursos e ações necessárias para um contexto de um novo normal. Eles estão calculando quantas pessoas espaçadas por metro e meio caberão em um escritório, tentando adaptar banheiros, refeitórios e entradas na sede. Todas essas são tarefas importantes, mas não são as mais adequadas. O que vai permitir que a empresa saia do outro lado, e continue a sobreviver e a crescer no pós-COVID é sua capacidade de se transformar e se ajustar ao novo cenário de mudanças contínuas. Um escritório com espaços de metro e meio entre funcionários e um refeitório adaptado não torna uma empresa ágil, rápida, adaptável e elástica.

No cenário pós-COVID e no pós pós-COVID as empresas, os negócios e a sociedade serão cada vez mais digitais e centradas em IA. Um exemplo deste novo modelo de empresas é a Amazon. No livro “Bezonomics” de Brian Dumaine, fica claro que os algoritmos de IA não estão apenas operando a companhia, mas estão se tornando a própria Amazon. IA é o coração da Amazon. Adotar IA nas estratégias de negócio não pode ser mais no ritmo de antes da pandemia, devagar, cauteloso. Hoje, o tempo é um luxo que os líderes não têm. IA deve estar alinhada com as estratégias do negócio, até por questões de sobrevivência. Os executivos não podem mais ficar alheios ao mundo digital e à IA. Esse conhecimento deve estar entranhado em seu cinto de utilidades. Ser fluente digital já é tão importante para um CEO  quanto a fluência em discutir questões financeiras como fluxo de caixa e EBITDA. As empresas e os líderes que reconhecerem que a transformação digital é necessária e urgente, serão as vencedoras. 

por Cezar Taurion

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Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). Na sua carreira, entre outras atividades, foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil e sócio-diretor e  líder da prática de IT Strategy da PwC. É autor de nove livros e professor convidado da Fundação Dom Cabral. Foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

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*Cezar Taurion é Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral. Antes, foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.