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por Cezar Taurion

A transformação digital embute a proposta que no final toda empresa será uma empresa de tecnologia e esta mudança é desafiadora para as áreas de TI e os CIOs. Para acompanhar este processo os gestores de tecnologia precisam correr mais riscos, assumirem uma postura mais empreendedora e passar a oferecer uma TI voltada mais para fora do que para dentro. Existem barreiras, muitas delas culturais, como, pasmem, muitas empresas e CIOs ainda verem a entrega de resultados operacionais como a principal responsabilidade da TI. Este cenário, ainda bastante comum, é sintoma que muitos executivos de negócio, como os CEOs, continuam vendo a TI mais como operação e não como a escolha natural para promover inovação em suas empresas. Em consequência os CIOs, apesar de afirmarem em pesquisas e conversas que inovação é sua prioridade estratégica, se veem pouco envolvidos com ela. 

Isso deixa claro que para parcela bem significativa do mundo empresarial, a TI ainda é olhada de forma operacional, com visão de curto prazo. Além disso, muitas áreas de TI não estão instrumentadas para a transformação digital. Venho comprovando, por vivências com vários CIOs, que realmente muitos deles sofrem com a percepção que nas suas empresas a TI ainda é vista como operacional, não sendo chamada para contribuir estrategicamente para a diferenciação do negócio. Aliás, são poucos os casos onde a TI define em conjunto a estratégia do negócio. Poucas são as organizações cuja TI responde ao CEO. Raríssimas são as que tem o CIO no seu conselho de administração. Este é um ponto interessante. Concordamos que TI de maneira geral permeia as estratégias de todas as áreas de uma empresa, mas vemos pouquíssimos executivos de TI fazerem parte dos conselhos. Ainda vejo muitos CIOs fazerem seus PDTI (Plano Diretor de Tecnologia da Informação!), a posteriori das definições estratégicas. Daí o paradoxo: contradições entre a importância crescente da tecnologia para as empresas e a TI ainda sendo vista como operacional e não como alavancadora de inovações tecnológicas. A contradição fica nítida quando entendemos que o processo de transformação digital implica naturalmente que TI passa a ser o negócio, o que contradiz o cenário das empresas cujos CIOs são mantidos à distância, cuidando da operação, com uma clara distinção entre TI e o negócio.

Infelizmente, para elas, o processo de transformação digital é inexorável e as mudanças serão contínuas. No atual mundo hiperconectado, as velocidades de resposta às demandas do mercado e o uso da tecnologia como parte natural e integrante dos processos e produtos da empresa não são nada mais que obrigação, naturais e esperadas pelos clientes.

É necessário reverter o cenário atual da TI operacional. A transformação digital não espera pelos atrasados. O que os CIOs que se encontram nesta situação podem fazer? Se eles continuarem a manter suas parcas iniciativas de inovação na fila de projetos da área de TI, com budgets mínimos, eles simplesmente nunca terão prioridade. Basta ver que muitas empresas, diante do cenário econômico adverso, cancelam imediatamente suas ações de inovação. “Não é o momento. Vamos esperar a situação melhorar!”.  Em contexto econômico adverso aumentam a cobrança pela sustentação das operações e desaceleram qualquer tentativa de inovar. 

A mudança impõe uma nova abordagem para TI. TI não é mais um setor operacional que acelera os processos existentes, como foi nos anos 80, 90 e 2000, e ainda tem sido em muitas empresas. Agora, deve estar totalmente integrada ao negócio. Aliás, o negócio não existe mais sem tecnologia digital. Sem a “nova TI”, as portas não abrem, os aviões não voam, as filas se acumulam e você não pode sequer pegar um café.

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Suas novas prioridades, portanto, devem ser: Passar as atividades de menor valor agregado para parceiros de negócios, reduzir seu envolvimento nas questões operacionais, liberar mais tempo para interagir com os executivos de negócio, simplificar sua operação e embutir os novos conceitos tecnológicos como base natural e primordial de seus novos projetos. O CIO precisa se transmutar em orquestrador de soluções, liderando e impulsionando a transformação digital em estreita colaboração com seus CEO e demais C-levels. 

Para isso não basta querer. Deve criar e disseminar a cultura de inovação na área de TI, até a incluindo um ajuste significativo na sua missão. Curioso, que são poucas as áreas de TI que tem uma missão bem definida. Aliás, como sugestão de referência, uma missão de uma área de TI que vi algum tempo atrás no exterior: ”Our mission is to transform technology to be enabler of brand differentiation”.  Que tal servir de inspiração para criar a missão da sua TI?

O CIO deve assumir postura evangelizadora, mostrando seu lado visionário e como estas visões contribuirão para o negócio, e poderão influenciar a estratégia da empresa. Para ser mais ouvido, deve fazer a TI implementar soluções que estejam as mais próximas possíveis de onde a geração de receita da empresa acontece. É essencial quebrar a barreira tradicional da “TI e o negócio”, mudando para “TI é o negócio”. A TI deve assumir um “espírito digital”, que é pensar e agir como uma empresa digital, e não como um departamento burocrático, preocupado com aderência às regras de compliance, relutante às inovações. O novo modelo de TI necessita muito mais tolerância a riscos e adoção de conceitos como “fail fast, learning fast”, hoje uma heresia no pensamento de muitos profissionais e executivos de TI.

O CIO deve assumir papel da liderança estratégica neste processo de transformação digital. O risco de não o fazer é perder sua relevância na corporação. Como fazer? Focar no ecossistema digital, tornando-se o principal influenciador da transformação digital na sua empresa. Mudar seu foco de 80% do tempo dedicado a questões técnicas e reuniões com fornecedores de tecnologia a 80% dedicado a pensar e implementar estratégias digitais com o negócio. Prover a visão de futuro e inovar na forma de como fazer esta visão de futuro se tornar realidade. Por exemplo, até que ponto justificar a manutenção de servidores dentro de casa em um cenário de demandas extremamente rápidas e ágeis, com ofertas de provedores de cloud de primeira linha? Até que ponto justificar o apego a processos de desenvolvimento e operação baseados em métodos criados há 20 anos? Até que ponto justificar o luxo de não explorar o verdadeiro oceano de dados que existe na empresa, dispersos por dezenas de aplicações, sistemas de e-mails, conversas com a central de atendimento e até mesmo interações nas mídias sociais? Não existe excesso de dados nas empresas, existe escassez de algoritmos! Até que ponto justificar não ter uma verdadeira visão 360° dos seus clientes? Até que ponto justificar a pouca intensidade da exploração da mobilidade e agilidade nos processos de negócio?

Esta mudança de mind set exige mudanças nas atitudes. Mais comunicação, mais interação com os executivos de negócio, menos hermetismo tecnológico, mais tempo dedicado em eventos e contatos do seu setor de indústria, e menos com fornecedores de TI.  

Implica também olhar e gerenciar a própria TI como um negócio, a tornando não apenas um meio de transformar os processos de negócio com automação, mas mudando o próprio negócio, com iniciativas transformadoras. A mensagem é curta, simples e clara: o futuro do CIO e da TI é ser o negócio. 

por Cezar Taurion

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Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). Na sua carreira, entre outras atividades, foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil e sócio-diretor e  líder da prática de IT Strategy da PwC. É autor de nove livros e professor convidado da Fundação Dom Cabral. Foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

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*Cezar Taurion é Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral. Antes, foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

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