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PANDEMIA E SOCIEDADE

Por Rodrigo Augusto Prando

Presenciamos, sociologicamente, uma suspenção da vida cotidiana, da normalidade de nossas relações sociais. E, sejamos realistas, isso assusta, nos traz medo, angústia e sensação de impotência frente à pandemia ocasionada pelo Covid-19, o novo Coronavirus. Escolas e universidades com aulas suspensas, supermercados com falta de mercadorias, comércio fechando, profissionais de várias áreas em home office,  medo de apertos de mão, de tosses e espirros e a manutenção de uma distância segura dos outros, enfim, nossos hábitos e sociabilidade encontram-se em compasso de espera de uma vacina ou cura da doença em voga.

Há, em primeiro lugar, uma dimensão pessoal, individual, na crise que nos assombra. Devo ser responsável por mim mesmo, pela minha saúde. Há que se evitar as aglomerações e postergar aquilo que pode ser remarcado. Além disso, sentir medo é normal, todavia, entrar em pânico e disseminar, por exemplo, fake news, teorias da conspiração ou mesmo informações sem fonte confiável não ajuda e podem degradar ainda mais o ambiente já convulsionado. Outro dado importante é que minhas ações trazem consequências para meu entorno, seja o mais direto, como, por exemplo, familiares, ou para círculos mais amplos devido às redes sociais. De minha parte, confesso, senti, inicialmente, dificuldades em não cumprimentar os amigos, dar abraços e beijar minha esposa e filho. Até porque, culturalmente, nós, brasileiros, somos ligados ao contato corporal na demonstração de afeto. Depois de me policiar acerca deste comportamento, já consegui reconfigurar estes hábitos e tenho tentado, com educação e sutileza, pedir o mesmo para minha esposa e filho. As crianças, no caso, devem ser informadas e não assustadas e insistir na higiene e evitar colocar as mãos na boca, olhos e nariz. Quem tem filho sabe que não é fácil, mas é urgente e necessário. Se, individualmente, estivermos bem- saudáveis –  poderemos, inclusive, dar suporte aos considerados pertencentes ao grupo de risco, os idosos, nossos pais e avós, entre outros. 

Há, também, para além do individual, uma dimensão coletiva, social, do problema. Aqui, vemos, especialmente, a importância do conhecimento das Ciências Sociais: Sociologia, Ciência Política e Antropologia. A sociedade não é, simplesmente, uma coleção de indivíduos. A vida coletiva e com a presença do poder político limita os desejos, vontades individuais, bem como a força oriunda de uma posição econômica privilegiada. Com isso, sem as noções de solidariedade, de respeito aos direitos e deveres, da presença do poder coercitivo do Estado, em situações como a que presenciamos teríamos quase que um retorno ao chamado “estado de natureza”, pré-social e no qual a força e vontade de alguém só encontra parada na força e vontade de outro. Em termos mais concretos, menos abstratos, como ficaríamos se apenas os mais ricos pudessem comprar e estocar tudo o que desejassem, seja comida, produtos de higiene ou remédios? Não se encontra, nestes dias, para a compra,  mais álcool em gel ou máscaras cirúrgicas. Neste cenário, o poder estatal, dentro das normais legais, deve cumprir seu papel de regular as relações de compra e venda, limitando a quantidade de produtos por consumidor, quebrando patentes e fiscalizando e multando comerciantes e indivíduos que, porventura, queiram abusar de seu poder econômico e desrespeitar a lei. O livre mercado é importante, bem como os valores e as teses liberais; contudo, sem regras e a mediação dos poderes estatais (Executivo, Legislativo e Judiciário) o caos se avizinharia. Para falarmos com o velho Durkheim, positivista, há a força da consciência coletiva para impor limites às consciências individuais, pois sem ordem não há progresso. 

Politicamente e, por isso mesmo, ainda no campo coletivo, as crises são reveladoras dos verdadeiros líderes e, ao contrário, apontam, inexoravelmente, a pequenez e a incompetência dos chefetes. Governar não se resume a chefiar, como tão bem explicou Marco Aurélio Nogueira em seu livro “Em defesa da política”. O político, da Política com p maiúsculo, é o que se destaca como líder, cujas qualidades são intelectuais, técnicas e morais. Por isso, o chefe manda e os subordinados obedecem; ao passo que o líder dialoga, inspira, convence e dirige. Fato é que liderar é bem mais complexo e difícil do que chefiar. O mundo, em sua complexidade, e, agora, com uma pandemia cujo impacto se dará, ainda sem como dimensionar, na saúde, privada e pública, na economia, nas relações sociais e políticas, no plano nacional e internacional, reclama a presença de líderes. Uma liderança política, empática, confiável, que seja capaz de superar o que nos divide, politicamente, objetivando conjugar o que nos une, socialmente. 

A todos, aqui, leitores e leitoras, deste texto, escrito no calor dos acontecimentos, com as primeiras mortes confirmadas, no Brasil, espero que possam se resguardar e, ainda, que estejam bem junto aos seus. A situação será, por um tempo ainda, bastante séria, no entanto, que o medo não se transforme em pânico. Que em nossa forma de ver e de agir sejam tomadas pela generosidade, pela consciência crítica que a situação reclama, pela conduta de ajuda aos mais fracos, desprotegidos, dos que passam por momentos de dificuldades materiais ou psicológicas. Compre o que for necessário, mas não estoque. Lembrem-se que seus funcionários são pais, mães e filhos, que vão precisar do salário. Leiam em casa e leiam com seus filhos. Alterne horas de trabalho com momentos de lazer com a família.  Ofereça ajuda para quem não pode ir ao supermercado. Contaminar-se com o vírus pode ser uma grande loteria do acaso, mas, em nosso país, duas das primeiras mortes foram de uma empregada doméstica e de um porteiro e isso revela muito sobre nossas gritantes desigualdades. Já, em Portugal, foi o presidente do Banco Santander que veio a falecer. A situação europeia e a italiana, em particular, deve servir de base para uma reflexão de como as autoridades e a sociedade lá agiram para que nós, aqui, possamos planejar e executar ações inteligentes e eficazes. 

Vamos superar esse quadro, não sem dificuldades e cicatrizes. Confiemos nos cientistas, médicos, profissionais de saúde e jornalistas que buscam informar com seriedade. Unamo-nos na solidariedade, ainda que distantes fisicamente. Força, paciência e serenidade a todos nós!

RODRIGO PRANDO

Por Rodrigo Augusto Prando

Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas.
Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp.
Pesquisa sobre cenários políticos brasileiros, empreendedorismo, cultura brasileira e cultura política.