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Mundo pós Covid-19

Indiscutivelmente que na quarta revolução industrial, o software passa a ser o alavancador das mudanças na sociedade. O artigo “Why Software Is Eating the World”, publicado originalmente em 2011 está extremamente atual e mais significativo que nunca. O impacto das transformações que veremos nos próximos 10 anos serão muito maiores que as que vimos em quaisquer outras revoluções tecnológicas. Uma pesquisa da McKinsey mostrou uma diferença significativa de desempenho entre as empresas que já se atentaram para a capacidade de produzir software de forma rápida e eficiente. A pesquisa mostrou que entre as empresas pesquisadas, as que se situavam no quartil superior apresentaram em comum uma produtividade de criação de software três vezes superior aos do quartil inferior. Assim, fica nítido que a diferenciação competitiva está na sua capacidade de entregar software. Software não é mais um assunto para nerds e de responsabilidade única dos CIOs, passando a ser uma preocupação de qualquer CEO que queira manter sua empresa relevante nos próximos anos.  Os CEOs devem estar antenados para o fato que a capacitação de desenvolver uma organização de software em suas empresas, quaisquer que sejam o setor de indústria, passa a ser o elemento chave na diferenciação e criação de valor de um crescente número de produtos e serviços. 

Já em 2015, o World Economic Forum, publicou um relatório, chamado “Deep Shift – Technology Tipping Points and Societal Impact”, que identificou 21 “tipping points” que, apontava, quais tecnologias terão potencial de remodelar a nossa sociedade. E, claro, software está no centro de todas elas. Cinco anos depois, revisitando o documento, e adicionando o efeito do COVID, que acelerou muita coisa, vemos que os efeitos da evolução tecnológica deve provocar mudanças ainda mais significativas na sociedade. Um recente estudo, “Rethinking Humanity” enfatiza que estamos à beira da transformação mais rápida e mais profunda da história da civilização humana.

“Tipping point” ou ponto de inflexão é aquele momento onde a tecnologia alcança massa crítica suficiente para se disseminar pela sociedade e causar impactos no comportamento social. Esta disseminação é exponencial. Infelizmente, o nosso modo de pensar de forma linear, quando a evolução é exponencial, nos leva a terrível armadilha de subestimar o impacto das transformações. Um exemplo de como a mudança exponencial é subestimada foi o Human Genome Project. Foi lançado em 1990, com estimativa de ser concluído em 15 anos a um custo de US$ 6 bilhões. Em 1997, metade do prazo, apenas 1% do genoma humano tinha sido sequenciado. Pelo planejamento linear que nós adotamos, supondo 1% em 7 anos, levaríamos 700 anos para concluir o sequenciamento. Parece lógico não? A pressão para encerrar o projeto foi imensa, mas quando perguntaram ao futurista Ray Kurzweil, ele disse “1% significa metade do caminho. Vão em frente!”. Ele pensou exponencialmente. 1% dobrando a cada ano significa chegar aos 100% em 7 anos. O projeto foi concluído em 2001, quatro anos antes do planejado e custando muito menos dinheiro que o estimado. O pensamento linear, tradicional, errou o alvo por 696 anos!

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Vemos a exponencialidade em toda a parte. A nossa presença digital tem se disseminado muito rapidamente, com crescimento exponencial. Em 1995, 25 anos atrás, apenas 0,6% ou cerca de 35 milhões de pessoas estavam na Internet. Hoje são 4,57 bilhões de pessoas, ou 59% dos habitantes do planeta. Já se estima que em 2025 cerca de 80% da população do planeta já estará conectada pela Internet.  Perfeitamente possível pela expansão das redes wireless, que demandam muito menos infraestrutura que as redes fixas. Hoje cerca de 85% da população do planeta já vive próximo a, pelo menos, uma torre de celular, que pode prover este acesso. Projetos alternativos e complementares já estão em desenvolvimento e muito em breve estarão ampliando este alcance de conexão como o do SpaceX,  com suas redes de satélites de baixo custo. O acesso à Internet passará a ser um direito básico da sociedade, assim como o acesso à água potável.

Há pouco mais de dez anos atrás basicamente interagíamos uns com os outros, via um desktop ou laptop via e-mail, navegávamos em sites, podíamos até ter um site pessoal ou um blog, e um celular com alguma interatividade. O iPhone só surgiu em 2007. Hoje interagimos com um smartphone que é um computador de bolso, compartilhamos ideias e expressamos nossas opiniões via várias redes sociais como Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, WhatsApp e outras, e usamos apps para nos ajudar em praticamente todas as nossas atividades diárias. Só para termos uma ideia, as duas maiores populações do planeta, são o Facebook com 2,6 bilhões de pessoas, seguido pelo WhastApp com 1,5 bilhão. Depois é que vemos a China com 1,4 bilhão e Índia com 1,3 bilhão. Hoje são 2,6 bilhões de usuários ativos. Os países com maior número de usuários são esses, na sequência:

1. Índia, com 280 milhões
2. EUA, com 190 milhões
3. Indonésia, com 130 milhões
4. Brasil, com 120 milhões
5. México, com 86 milhões

O alcance das empresas de Mark Zuckerberg, no entanto, é maior ainda, quando a análise é feita sobre o grupo todo. Cerca de 43% da população global utiliza pelo menos uma das suas plataformas: Facebook, Instagram, WhatsApp ou Messenger.

O smartphone merece uma atenção à parte. Estima-se que em hoje são 3,5 bilhões e até ano que vem este número deve chegar a 3,8 bilhões, o que significa que um em cada dois habitantes do planeta estará com um smartphone em suas mãos. Novamente, o crescimento não é linear, mas exponencial. Aualmente, o acesso à Internet acontece via estes aparelhos, e não mais por desktops e/ou laptops. Em alguns países como Singapura e Coréia do Sul, 90% da população usam smartphones. O crescimento da capacidade computacional destes smartphones é impressionante. O iPhone 4 de 2010 tinha a mesma capacidade de um Cray-2, o supercomputador mais rápido do mundo em 1985. O Apple Watch, que apareceu cinco anos depois, em 2015, já apresentava uma capacidade de dois iPhone 4! Ou seja, literalmente, hoje, cada usuário de smartphone tem nas mãos vários supercomputadores de 30 anos atrás, que custavam dezenas de milhões de dólares. Vejam este curioso artigo “How the computing power in a smartphone compares to supercomputers past and present” para se ter uma ideia mais ampla de quanto de capacidade computacional carregamos em nosso bolsos.

A capacidade de memória também evolui de forma exponencial e provavelmente em poucos anos a imensa maioria da população terá acesso a espaço quase ilimitado e gratuito de armazenamento. Hoje estima-se que 90% dos dados do mundo foram criados nos últimos dois anos e este crescimento exponencial continuará nos próximos anos. O volume de informações gerados pelas empresas dobra a cada 1,2 anos. Armazenamento está rapidamente se transformando em commodity, liderado por empresas como Amazon (AWS) e Dropbox. Uma comoditização do armazenamento com a acesso livre e ilimitado matará qualquer empresa de tecnologia cujo modelo de negócios é vender discos magnéticos para usuários, sejam estes, empresas ou pessoas físicas. É um negócio que só existirá para suportar os grandes fornecedores de armazenamento.

Deste relatório, que merece ser lido com atenção, destaquei algumas das tecnologias que me chamaram a atenção pelo seu impacto nos negócios.

O primeiro é a Internet das coisas. Uma estimativa de 1 trilhão de objetos (sensores) conectados até 2025, daqui à cinco anos,  é um número impressionante. Praticamente todo objeto físico poderá potencialmente estar conectado. Estarão em todos os lugares, mudando processos, criando novos modelos de negócio e abrindo novas oportunidades (e riscos) para as empresas e a sociedade. Cada vez mais teremos casas conectadas e cidades. Os veículos inteligentes já começarão a ser lugar comum, pelo menos nas estradas e em delivery de alimentos e produtos. Pelo menos 10% dos veículos em circulação no mundo serão autônomos, ou seja, não precisarão de motoristas na sua operação. Talvez em no máximo dez anos, em algumas cidades, o movimento dos taxistas contra o Uber e outros sistemas de transporte terá sido substituído pelos dos motoristas do Uber contra os veículos autônomos. A profissão de motorista, seja de caminhão ou táxi tende naturalmente a desaparecer nas próximas décadas, como as datilógrafas e ascensoristas.

O crescente uso de dados permitirá que em mais cinco ou seis anos um país provavelmente terá substituído seu censo periódico pelo uso intensivo de análises de dados baseados em Big Data. IA (Inteligência Artificial) e “machine learning serão “business as usual” e não mais experimentações isoladas nas empresas. Exemplos do cenário previsto pelo relatório: cerca de 30% das auditorias corporativas serão feitas não mais por auditores, mas sim por sistemas inteligentes. O mesmo poderá acontecer em outras áreas. Os sistemas de IA já demonstram, em diagnósticos de imagem, como câncer de pulmão, uma taxa de acerto de 90%, que é superior à dos médicos, que geralmente fica nos 50%. A razão é simples: imensa e variada massa de dados a serem analisados. Para um médico se manter atualizado com as descobertas e inovações no setor, são necessários, no mínimo, 160 horas por semana. Impossibilidade! Assim, sistemas de IA podem ajudar em muito no diagnóstico e o tratamento de doenças. Escrevi uma série de seis artigos sobre o impacto da IA na medicina, e o resumo e o link para eles pode ser encontrado no texto “Inteligência artificial vai restaurar humanismo da medicina”.

As impressoras 3D estarão em todos as atividades. Estima-se que por volta de 2025 seja fabricado o primeiro carro totalmente produzido por uma impressora 3D. Isso simplesmente tornará um conjunto de impressoras 3D substitutas potenciais de uma fábrica inteira. Espera-se também que 5% dos produtos de consumo já sejam produzidos em impressoras 3D. Veremos transplantes de órgãos humanos criados por estas impressoras. Aliás, em 2014 a China conseguiu implantar uma seção de uma vértebra, fabricada por uma impressora 3D, em um paciente, substituindo uma vértebra cancerosa em seu pescoço. Já paramos para pensar nas consequências disso para os negócios atuais?

Assim, as mudanças estão acontecendo em ritmo acelerado, exponencialmente. Seu poder de transformação da sociedade e empresas não pode ser ignorado. Os executivos das empresas, devem estar antenados com estas mudanças. Elas já estão no cenário estratégico de curto a médio prazo, e mudarão de forma significativa as estruturas sociais, empresariais e, consequentemente, modelos de negócio e de operação. Os bilhetes para o trem estão se esgotando e se não corrermos, vamos perdê-lo.

por Cezar Taurion

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Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). Na sua carreira, entre outras atividades, foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil e sócio-diretor e  líder da prática de IT Strategy da PwC. É autor de nove livros e professor convidado da Fundação Dom Cabral. Foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

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*Cezar Taurion é Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral. Antes, foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.