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Há duas semanas eu lia um artigo sobre o déficit populacional em Portugal, e como os primeiros dados do censo realizado em 2021 confirmavam as previsões de decréscimo da população. É bem possível que Portugal chegue a 2050 com uma população inferior a 8 milhões de pessoas. No último ano a população só não diminuiu por conta dos imigrantes e eles não param de chegar. Por outro lado, há inúmeras dificuldades de absorção dessa força de trabalho e sua integração ao mercado local. 

Não deixa de ser uma posição privilegiada, a de Portugal. Um país que desperta cada vez mais interesse como alternativa de vida para habitantes das ex-colônias, tem a oportunidade de desenhar um belo programa de imigração para escolher e integrar os potenciais melhores imigrantes e simplesmente não o faz. Notadamente há esforços na elaboração de vistos de residência e outras iniciativas para atrair imigrantes. Mas Portugal atua como aquela empresa que atrai talentos, mas ainda falha em retê-los. 

Se muitos brasileiros conhecem alguém que atravessou o Atlântico em busca de uma vida melhor, também conhecem quem tenha voltado. Decepcionado com os baixíssimos salários, com o baixo potencial do mercado de trabalho (especialmente para profissionais com alguma experiência) ou ainda com episódios de xenofobia.

Os caminhos dos brasileiros que decidem desembarcar em Portugal são variados. Aposentados estudantes, profissionais liberais, profissionais experientes no Brasil em busca de um recomeço no mercado de trabalho Português. E há também quem decida empreender, seja começando algo diferente do que fazia no Brasil ou expandir seu negócio. Mas a que tipo de empreendimento os brasileiros se dedicam? Quais têm mais chance de dar certo? 

Eu costumo dizer que uma loja de pastel de nata no Brasil tem muito mais chance de dar certo que uma loja de brigadeiro em Portugal. O comportamento do consumidor Português é muito conservador. E os brasileiros adoram testar uma novidade. Fizeram filas e filas para as temakerias, as paletas mexicanas, iogurterias e assim será na próxima moda. Em Portugal não funciona assim. Um café é um lugar para tomar café, pastel de nata e outras iguarias locais. Sem brigadeiro, brownie, bolo com muita cobertura ou recheio. 

Além disso o empreendedor precisa entender que o ambiente de negócios é diferente. É verdade que a burocracia e as questões fiscais são mais simples e também que existem incentivos do governo, além de um ambiente de negócios de maior confiança. Isso anima o empreendedor. Mas abrir uma loja com nome em inglês ressaltando atributos como exclusivo, gourmet, etc., isso não vende tanto como no Brasil.

Há negócios que visam atender especialmente a comunidade brasileira. Neste mercado, o empreendedor atende uma base mais restrita de clientes, mas não enfrenta os preconceitos típicos contra brasileiros. Aquele estereótipo de que brasileiros são malandros, não confiáveis? Pois, infelizmente isso ainda existe. 

Até pouco tempo atrás o mercado da saudade (saudade dos produtos brasileiros ou de ser atendido como no Brasil) não era tão interessante em termos de volume e acesso. Hoje, com o aumento da população brasileira (em 2020 éramos 184 mil residentes legais) e o avanço do e-commerce em Portugal, isso começa a fazer sentido. Para esse público, alguns sucessos são relacionados a alimentação (bares, restaurantes e mercados especializados) e beleza (nada como cuidar dos cabelos e unhas com técnica e atendimento de salão brasileiro). Outros negócios que tem muita demanda são os relacionados a serviços jurídicos, design de interiores, corretagem de imóveis e saúde. Médicos e dentistas que conseguem (depois de um processo por vezes injusto e sempre muito desgastante) validar seus diplomas em Portugal, costumam ter clientela brasileira cativa.  

Mas se seu negócio pretende atender ao público em geral, é preciso observar com calma que fatores são importantes para o seu setor. Entretenimento, hospitalidade e design, por exemplo, são áreas em que os brasileiros têm talento reconhecido. Nesses setores o Brasil tem valor como marca.

Se for um negócio digital, seja B2B ou B2C, é importante pensar além de Portugal. Mirar o mercado europeu. Não só porque o mercado português é pequeno, mas também por que pode ser mais fechado a um produto ou serviço brasileiro do que o mercado espanhol, italiano ou mesmo alemão. E isso não só por uma questão de preconceito, mas por uma questão de prontidão. 

Muitas startups brasileiras que vêm para Portugal se deparam com um cenário difícil para vendas, porque estão habituadas ao cenário empresarial brasileiro: dinâmico, rápido e, aos poucos, mais inovador. As empresas portuguesas nos remetem ao Brasil de 20 anos atrás. Em sua maioria estão engatinhando em temas como comércio eletrônico, marketing digital, retenção de talentos, gestão de estoques. Só para citar alguns. Ao perceber isso, muitos empreendedores passam a focar em multinacionais que estão instaladas em Portugal e isso faz muita diferença. Ao atender uma subsidiária em Portugal, depois tentam vender à matriz em outro país europeu e então seguem sua jornada. 

Além do foco em outros países, essas startups também conseguem em Portugal alguma facilidade para montar equipes multinacionais, o que as prepara ainda mais para atender o mundo. Lisboa, Porto e outras cidades atraem pessoas de muitos diferentes países. E uma equipe diversa em nacionalidade ajuda a quebrar barreiras. 

Para quem se interessa pela jornada empreendedora em Portugal, vale a pena estudar o mercado, conhecer os hábitos do seu público alvo e trocar ideias com quem já fez esse caminho. É importante também pesquisar as inúmeras possibilidades de vistos e procurar ajuda das câmaras de comércio e programas de incentivo ao empreendedorismo. Além de aprender, nós brasileiros temos muito a contribuir com o ambiente de negócios em Portugal. Nossa agilidade, atendimento, capacidade de adaptação, conexão, visão comercial, isso encanta a quem está disposto a nos conhecer. 

Por Cintia Mano

Cintia Mano é investidora anjo e mentora de negócios, além de Diretora da OilFinder.

É graduada em Ciência da Computação pela UFRJ, Mestre em Administração pelo COPPEAD/UFRJ e participou de programas de educação executiva no MIT, IMD e Schumacher College.

Após 15 anos em posições de liderança em grandes empresas (em Finanças, Estratégia, TI, RH) ela decidiu deixar o mundo corporativo em 2012 e tornar-se sócia da OilFinder, start-up brasileira do setor de Petróleo.

A partir da experiência empreendedora, Cintia envolveu-se mais e mais com o ecossistema de inovação em diferentes papéis: como jurada em competições de pitches, mentora de empreendedores e de programas de aceleração e como investidora anjo.
Atualmente ela investe com a REDangels e a COREangels, dois grupos de anjos que já investiram em mais de 25 startups. Ela foi reconhecida pela Sifted (Financial Times) com uma das mulheres investidoras de destaque em Portugal.

By rt360