fbpx

Bigtech e Banking

O debate sobre o futuro dos bancos vem se aquecendo.  Falamos muito em Fintechs, mas será que a ameaça aos bancos vem apenas destas novas empresas de tecnologia? Indiscutivelmente que as Fintechs oferecem hoje uma experiência muito mais agradável aos clientes que os grandes bancos. Estes, apesar dos pesados investimentos em suas plataformas digitais, ainda estão perdendo a disputa pela experiência proporcionada aos clientes. Afinal, os bancões, como tem agências físicas, acabam deixando para elas o que não conseguem resolver no mundo digital. 

As expectativas dos clientes dos bancos estão evoluindo rapidamente. Quando os atuais sistemas bancários foram criados, o mundo era um lugar muito diferente. A agência bancária era normalmente o único canal de contato com o cliente e a maioria dos processos era focada no produto e não no cliente. Além disso, processos como abertura de conta, aprovação de crédito, e outros, podiam levar dias para serem concluídos. Os consumidores de hoje, com base em suas interações com empresas de outros setores, se acostumaram a processos rápidos e de baixo atrito (integração, facilidade de concluir uma transação, tudo pelo smartphone, etc.). Além disso, os consumidores esperam cada vez mais produtos e serviços adaptados às suas necessidades e desejos individuais. Esta demanda do novo consumidor é o que impulsionou grande parte do apelo das Fintechs. Elas endereçaram exatamente esta carência dos consumidores frente aos bancos tradicionais. 

“A própria palavra fintech já entrega sua essência: é a junção das palavras financial (financeiro) e technology (tecnologia).”

Mas, apesar de proporcionarem esta experiência superior, será que as Fintechs atuais terão capacidade de substituir os grandes bancos? Não creio. Vemos que as Fintechs da primeira geração não têm conseguido criar escala suficiente e acabam se concentrando em nichos específicos. Os grandes bancos, apesar de serem baseados em sistemas legados que os inibem de ter a agilidade e velocidade que as Fintechs oferecem, podem, com seus imensos investimentos, se atualizarem e inovarem, inclusive com parcerias ou aquisições destas empresas menores.  As Fintechs, indiscutivelmente mudaram a base da competição dos serviços financeiros, mas não mudaram de forma concreta o cenário competitivo. Os grandes bancos continuam dominando o mercado. Na prática, as Fintechs da primeira geração provocaram mudanças incrementais no setor bancário. Um banco digital, apesar de ser muito mais ágil que os bancões, adota o mesmo modelo de negócios. 

Mas, no horizonte começamos a visualizar outro cenário. A disrupção no setor bancário se dará pela convergência quase simultânea de três vetores, que são tecnologias como IA e blockchain, base tecnológica da segunda geração de Fintechs; a entrada forte das BigTechs e as mudanças de atitude dos agentes reguladores, como estamos vendo na Europa e aqui no Brasil com o Banco Central tendo uma postura mais voltada a incentivar a competição no setor. 

Criptomoedas e blockchain tem o potencial de diminuir a relevância dos bancos. O papel dos bancos em ser intermediário aumenta o custo das transações, pois cobram um preço pelos serviços oferecidos, como nas transferências internacionais. Muitas vezes essa transferência, para chegar as pessoas em outros países com redes bancárias deficientes, leva muito tempo. Além disso, pelos altos custos dos serviços bancários, parcela significativa da população no planeta está fora deste contexto. A desintermediação reduz estes custos e permite acesso a transferências de dinheiro sem passar pelos bancos. O anúncio da criptomoeda Libra pelo Facebook está criando ondas de choque pelo sistema financeiro global. Imaginem um hipotético cenário onde os seus dois bilhões de usuários retiram suas atividades dos bancos e usam o próprio Facebook. Sério impacto nos bancos. Não é algo provável de acontecer, mas dá para imaginar o porquê dos receios do sistema financeiro.

A IA tem o poder de reduzir em muito a importância de vários serviços que são oferecidos pelos bancos. Vamos usar o exemplo dos bancos suecos. Lá os bancos estão tentando se defender dos robôs que atuam na consultoria de investimentos e gestão de patrimônio. Muitas startups, as FinTechs de segunda geração, começam a oferecer com seus robôs de IA serviços de consultoria independentes sobre poupança, fundos e carteiras de investimentos personalizados. Os serviços de consultoria de investimentos e os private banks se tornaram fonte de receita de maior importância e perdê-las afetará o resultado dos bancos. As FinTechs de segunda geração evoluirão do conceito de Mobile First, que já está comoditizado, e que foi típico das primeiras FinTechs, que se voltaram para facilitar a experiência do cliente, para serem AI First, onde IA será o cerne do negócio. Os bancos estão mais atrasados no uso da IA. Enfrentam vários desafios, como dados isolados em silos que são um entrave para um uso mais sofisticado da IA. IA é o motor, mas os dados são o combustível. Pela dificuldade de integrar os dados e torná-los acessíveis aos algoritmos, é que prejudica um uso mais eficaz da IA pelos grandes bancos. Além disso, os custos de manterem sistemas legados aumenta à medida que os sistemas envelhecem, custos que as Fintechs não têm.

As BigTechs, já vem com escala e relacionamento com clientes, muito maior que os próprios bancos. Enquanto os bancões olhavam as Fintechs como peixes pequenos, eles agora são peixes pequenos diante do tamanho de um Facebook, Google ou Amazon. Afinal as BigTechs são empresas com valor de mercado de um trilhão de dólares. As grandes empresas de tecnologia, como Amazon, Alibaba, Facebook ou Tencent, vem conquistando uma parcela cada vez maior do tempo e da atenção dos consumidores. Essas BigTechs veem os pagamentos e serviços financeiros não como um fim em si, mas como um meio para aumentar ainda mais o relacionamento com seus clientes, aumentando sua monetização com seus serviços fins como publicidade, comércio eletrônico ou outras ofertas (como a AWS e AlibabaCloud, este atualmente concentrado na Ásia). Embora mergulhem cada vez mais fundo nos serviços financeiros, não querem ser regulados como bancos. Portanto, seus serviços são baseados na integração com os bancos. Por isso, podem, por exemplo, não cobrar tarifas de serviços, que hoje são forte fonte de receita dos bancos tradicionais. Quando essas empresas entraram no setor pagamentos e finanças, principalmente nos mercados emergentes asiáticos, com a China sendo o maior exemplo, provocaram ondas de choque bem grandes. Estas empresas, além de serem nativas no mundo Internet, e, portanto, ágeis, sem os arrastos causados pelos sistemas legados, são naturalmente “AI First”, ou seja, IA é o core dos seus processos e sistemas. Um exemplo é o Google. O Google não usa IA para melhorar seu sistema de busca, mas usa seu sistema de busca para melhorar sua IA. Google é uma empresa de IA que atua em diversos setores, sendo que a busca é apenas um deles. As BigTechs são imensamente maiores em capacidade e talentos de IA que os bancos. IA está na veia delas. 

Aqui no Brasil o anúncio de 15 de junho, de que o WhatsApp atuaria no setor de meio de pagamentos no país deixou o mercado em ebulição. Afinal, uma Big Tech, com poder de fogo global, e 120 milhões de usuários no Brasil está entrando no jogo do mercado financeiro. O serviço incluiu Banco do Brasil, Nubank e Sicredi. Além deles, a Cielo, responsável pelo processamento, e as bandeiras Visa e Mastercard. No anúncio da empresa, o que chamou a atenção foi a ausência dos grandes bancos privados no projeto. Nem Itaú, Bradesco ou Santander embarcaram no negócio. Na verdade, já estão preocupados e muito. No fim do ano passado, o site NeoFeed fez a mesma pergunta para Octavio de Lazari Junior, presidente do Bradesco, e ele não economizou nas palavras. “Eu tenho preocupação com as big tech. Elas têm uma massa de dados, uma quantidade de informações do seu negócio de origem, que dá a elas uma vantagem competitiva muito grande para operar nesse mundo de banking com informações que elas possam gerar base de dados, aprovações de crédito de produtos e serviços de uma maneira muito contundente”.

Por isso os bancões não entraram:  porque não querem dar munição ao WhatsApp e já estão pedindo que o Banco Central analise a solução à luz da lei de meios de pagamento. Não aderindo pretendem a diminuir a propagação dos serviços de um concorrente de peso. Por outro lado, entram em conflito com os interesses de seus clientes. Todos eles usam WhatsApp. E ir contra o cliente não é uma boa estratégia.

O papel cada vez mais atuante dos agentes regulares em incentivar a competição, como o Open Banking e PIX amplifica o poder das plataformas BigTechs. As plataformas que oferecem a capacidade de interagir com diferentes instituições bancárias através de um canal único, poderão se tornar o modelo dominante para a prestação de serviços financeiros, relegando os bancos que ficarem inertes, a meros prestadores de serviços. Estes bancos serão como empresas que apenas fornecem infraestrutura de Internet, mas o valor agregado e as informações sobre os clientes (lembrem-se que dados são o novo petróleo) ficarão concentradas nas plataformas que operam em cima desta infraestrutura. 

Com certeza vale a pena um maior aprofundamento sobre o futuro dos bancos. Interessa a todos nós, sejamos profissionais do setor ou não, pois os serviços bancários afetam toda a sociedade. Os bancos que não perceberem a mudança que está chegando rápido e ficarem esperando ver o que vai dar, vão ter sérios riscos de sobrevivência. 

Sem sombra de dúvidas que a capacidade de mudar rapidamente, inovar facilmente e competir é uma necessidade estratégica. Os bancos não vivem mais em um ambiente estável, com a competição se dando apenas entre os mesmos atores. O ritmo da inovação e o efeito da revolução das FinTech, Bigtechs e bancos digitais estão se acelerando. Um banco lento tenderá a se tornar um fornecedor de commodities de serviços regulados com margens baixas. Irão sobreviver, mas terão que conviver com margens bem menores. A questão é como se adaptarão a este novo mundo menos rentável?

por Cezar Taurion

Ler outros artigos de Cezar Taurionclique aqui

Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). Na sua carreira, entre outras atividades, foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil e sócio-diretor e  líder da prática de IT Strategy da PwC. É autor de nove livros e professor convidado da Fundação Dom Cabral. Foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

https://www.linkedin.com/in/ctaurion/

*Cezar Taurion é Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral. Antes, foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.