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por Cezar Taurion

A disrupção provocada pela revolução digital é um tema recorrente nas minhas palestras e reuniões com clientes. Comentam muito sobre as startups, pois muitas são disruptivas por natureza, mas embora chamem atenção, pelo seu tamanho e crescimento rápido, nem todas sobreviverão. É assim a vida no cenário de negócios. Mas o importante é compreender a essência da disrupção, não o disruptor em si. O que a disrupção representa é o que é mais duradouro que qualquer startup.

A disrupção chamada de transformação digital é a mudança organizacional, provocada pelo uso inovador de tecnologias digitais e adoção de novos modelos de negócios, que reposicionam competitivamente a empresa no cenário empresarial. As organizações estão constantemente fazendo melhorias, mas o que realmente caracteriza a transformação digital não é apenas uma mudança incremental, mas uma significativa mudança na organização, fortemente influenciada pelas tecnologias digitais. É uma transformação que muda processos, pessoas, estrutura organizacional, modelos de negócio e estratégia, com o objetivo de melhorar substancialmente seu desempenho corporativo. Desta constatação, eliminamos as empresas que dizem que estão fazendo transformação digital, mas quando analisadas por estes critérios, apenas estão implementando aqui e ali um ou outro app, ou criando um canal de vendas online. Mudaram algo substancial nos seus processos? Nas suas estruturas organizacionais? Nos seus modelos de negócios? Melhoraram significativamente sua competitividade e desempenho? Não? Pois é, isso não é transformação digital.

A motivação para a transformação digital é indiscutível. Todos os setores de negócio serão afetados por ela. As empresas que não se movimentarem, terão dificuldades de sobrevivência frente à startups e outras empresas que se moverem primeiro. Além disso, seu setor de negócio pode ser invadido por empresas de setores adjacentes ou que vem de fora. Alguém da indústria fonográfica tinha sonhado que uma empresa fabricante de microcomputadores como a Apple seria a líder do segmento em poucos anos? A IBM imaginava que um varejista de livros como a Amazon seria a líder em cloud computing?

A base para a transformação digital é, ser, antes de mais nada, uma empresa ágil. A importância de ser uma empresa digital e ágil deve ser a ação principal dos CEOs que objetivam a transformação digital. A Harvard Business Review publicou um artigo instigante sobre o tema, chamado “Embracing Agile”, escrito por Hirotaka Takeuchi e Jeff Sutherland. Para relembrar, Takehuchi foi o criador do método Scrum e Sutherland um dos responsáveis por aplicá-lo no desenvolvimento de software, a partir dos princípios definidos pelo “Agile Manifesto”.

O importante é considerar que, embora Agile e Scrum sejam geralmente vistos apenas como aplicáveis a software, podem e devem ser aplicados a toda a organização. Isso significa por exemplo que Agile deve ser o princípio básico da operação da empresa. Uma organização ágil muda sua maneira de agir, em contraste com os modelos organizacionais da sociedade industrial, baseados no paradigma da estabilidade, mudanças lentas e um entrincheirado modelo de gestão hierárquico, tipicamente dilbertiano, de comando-e-controle.

Aliás, o “Agile Manifesto” deveria ser leitura obrigatória para todos os CEOs, C-level e CIOs (tenho certeza que muitos dos CIOs não o leram). A maior prioridade ditada pelo manifesto é “is to satisfy the customer”. É uma declaração revolucionária!?! Não é novidade. Em 1954 Peter Drucker já dizia que ““The only valid purpose of a firm is to create a customer”. Mas, embora a maioria das empresas diga isso, “o cliente em primeiro lugar”, na prática sua prioridade é satisfazer seus acionistas pela valorização de suas ações.

Ser ágil para uma empresa é uma mudança transformacional, mais ou menos como a revolução de conceitos que Copérnico provocou na astronomia, ao derrubar o paradigma do geocentrismo. Ágil significa que no centro do universo não está mais a empresa (e os clientes em órbita), mas o próprio cliente. A empresa é que orbita em torno dele. Isto implica em buscar proporcionar experiências positivas e inovação contínua. Portanto ser ágil é fazer uma mudança cultural significativa. Ser ágil não é opção, mas a base fundamental para competir na economia digital. Para atuar na economia digital, você tem que fazer a transformação digital do seu negócio, e para fazer esta transformação você precisa ser ágil. Simples assim!

O desafio da disrupção é que muitas vezes seus primeiros sinais passam desapercebidos. Mas, quando chega, seus efeitos causam mudanças em setores que à primeira vista não teriam a mínima ligação com a disrupção. Vamos exemplificar com veículos elétricos e autônomos, que já estão se tornando realidade.

Que indústria seriam afetadas por eles? De imediato pensamos na própria indústria automotiva. A convergência do veículo autônomo e elétrico, com o conceito de compartilhamento (economia do compartilhar ou shared economy) implica que menos veículos serão fabricados, pois menos pessoas tenderão a comprar um veículo. Por que comprar, se posso usá-lo de forma fácil e mais barata? As atuais montadoras passam a ser provedoras de serviços de mobilidade. Provavelmente irão competir com locadoras e empresas de ride-sharing como o Uber. Qual será a diferença entre uma GM, uma Localiza e um Uber? Mas, o impacto da mudança de conceito na indústria automotiva vai além e afeta a indústria de autopeças, oficinas e concessionárias. Primeiro, se não compro veículos, não preciso de concessionárias. A disseminação de veículos elétricos demanda menos componentes. Depois mais e mais peças complexas fabricadas em impressoras 3D diminuem o número total de peças básicas. Uma fábrica de autopeças e uma oficina podem ser a mesma coisa.

Mas, vamos ver outros setores adjacentes. A indústria de táxis e seus motoristas. Aliás, motoristas profissionais, de táxis e caminhões, tendem a desaparecer. Empresas de entregas, correm risco de serem disruptadas pela combinação de drones e veículos autônomos fazendo entregas em seus roteiros. E hotéis? Se as pessoas puderem dormir em uma viagem longa no próprio veículo (lembre-se que a configuração interna será bem diferente das atuais de hoje) talvez não precise de um pernoite no hotel, mas apenas usá-lo para um banho. Talvez novos tipos de hospedagens rápidas sejam criadas. Isto também pode afetar voos regionais. E as companhias de seguro? Os modelos de seguro de veículo para pessoas físicas de hoje, deverão mudar completamente. A indústria de saúde terá que lidar com menos vítimas de acidentes. E sem multas de trânsito veremos a redução de receita para as prefeituras. Teremos menos necessidade de espaço reservado para estacionamentos, o que pode facilitar revitalização de espaços públicos. Veículos autônomos permitem que as pessoas trabalhem no próprio veículo, diminuindo a necessidade das pessoas morarem perto do trabalho. Além disso, como as pessoas não terão que se preocupar em dirigir o veículo, poderão aproveitar o tempo em trânsito para entretenimento e lazer. O veículo passa a ser um hub de trabalho, entretenimento e mídia. Portanto, a disrupção vai muito além da própria indústria automotiva.

Um exemplo prático do que está por vir é a Tesla. Primeiro afetou a indústria automotiva. Sua capacidade de atualizar as funcionalidades do veículo através de downloads de software, mantem seus veículos mais valiosos no tempo que os atualmente fornecidos pelas montadoras tradicionais. Em maio de 2015, utilizando sua experiência em baterias entrou no setor de energia solar para residências, afetando a indústria de energia. A sua tecnologia básica que impactou a indústria de automóveis é facilmente transferível para geração de energia. É um exemplo de como uma disrupção em um setor se propaga por diversos outros setores, pegando de surpresa empresas que nem desconfiam que aquela inovação em um setor distante, será um risco para o seu negócio, muito em breve.

Este cenário de mudanças contínuas, em um mundo empresarial cada vez mais complexo, imprevisível, volátil e ambíguo será o nosso “business as usual”. Se você não for ágil, não conseguirá reagir a tempo. Preparados?

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Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). Na sua carreira, entre outras atividades, foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil e sócio-diretor e  líder da prática de IT Strategy da PwC. É autor de nove livros e professor convidado da Fundação Dom Cabral. Foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

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