Existem aceleradoras e “aceleradoras”. Como escolher a mais adequada para sua startup?

por Cezar Taurion

E aquele dia chegou. Sua startup evoluiu da ideia para um negócio, mas, ainda está incipiente. Você precisa de um empurrão e está em busca de uma aceleradora. O que você pretende? Ser acelerado via conexões com o mercado (capital relacional)? Acesso à investidores (capital financeiro)? Mentoria em negócios e tecnologias (capital intelectual)? Fortalecer seu networking com outras startups, profissionais e empresas? Bem, pelo menos grande parte disso é que você quer encontrar em uma aceleradora. Mas, será que todas conseguem entregar isso? Como escolher uma? Pelo número de startups aceleradas, pela localização ou pela fama?

A ideia básica de uma aceleradora é muito boa, mas existem aceleradoras e “aceleradoras”. As aceleradoras podem realmente ajudá-lo a acelerar seu crescimento (daí o nome). Mas só se você encontrar a aceleradora certa para sua startup. E se você está pronto para entrar em uma. A fase de aceleração demanda engajamento total da startup. Hard work!

Escolher uma que seja adequada ao que você deseja é fundamental. Uma escolha errada pode fazer com que sua startup tropece e saia do mercado. Esta é uma das primeiras e decisivas decisões que fundadores de startups se defrontam.

O cardápio é variado. Segundo estudo do Centro de Estudos de Private Equity da Fundação Getulio Vargas (GVCepe), existem cerca de 40 aceleradoras em atividade no país. Juntas, esses programas de aceleração já aportaram mais de R$ 51 milhões em mais de 1,3 mil startups, o que dá uma média de cerca de 40 mil reais.

Vamos olhar alguns critérios para selecionar uma aceleradora. Sim, não é apenas a aceleradora que seleciona startups. As startups devem também selecionar quais aceleradoras interessam. Por exemplo, não é suficiente analisar uma aceleradora pelo número de startups que passaram por ela (no jargão, “foram aceleradas por ela”). Analise sua taxa de sucesso. Quantas das startups que “foram aceleradas” realmente foram aceleradas, ou seja, conseguiram evoluir (tracionar) significativamente seu negócio ou conseguiram, pós-aceleração, uma outra rodada de funding?

Bem, e pela localização? Tem uma perto de sua casa, mas será que ela consegue criar densidade de capital intelectual de startups que gere valor nas conexões que você conseguirá fazer? Ou o conjunto das startups que residem lá é bem fraquinho?

Mas, para melhor analisarmos aceleradoras, comecemos por entender seu modelo de negócios básico. As aceleradoras são empresas que tem como objetivo apoiar e investir no desenvolvimento e rápido crescimento de startups, ajudando–as na obtenção dos recursos necessários para este fim. Além de uma oferta variada de serviços, as aceleradoras também investem um pequeno capital financeiro (chamado de survival money ou seed money), tornando-se sócias das startups até o desinvestimento, quando então a sua participação correspondente é vendida para investidores ou outras empresas. De maneira geral elas alocam espaço de trabalho e oferecem mentoria e relacionamentos com o mercado, em troca de participação acionária, que gira em torno dos 5%-8%. Este percentual varia bastante e não há uma regra definida. É importante analisar cuidadosamente se o percentual do equity solicitado pela aceleradora fará juz ao que ela vai oferecer em troca. O tempo de residência se situa entre 3 a 6 meses, embora encontremos ciclos de um mês a dois anos. De maneira geral as aceleradoras inspiram seus modelos de negócio na primeira aceleradora, a “Y Combinator”, criada em 2005, nos EUA.

Apesar de muita propaganda nos seus sites, uma parcela das aceleradoras, por não poderem arcar com custos elevados de mentoria, acabam buscando apenas mentores voluntários e portanto aglutinam uma maioria de mentores com pouca experiência e com baixo nível de relacionamento com o mercado. Mentores voluntários podem ser muito bons e realmente esforçados em ajudar, mas por serem voluntários, e envolvidos em suas próprias atividades profissionais, não podem se engajar o tempo suficiente que sua startup realmente necessita para ser acelerada. O que estas aceleradoras então fazem? Concentram-se então em destacar parcerias com provedores de tecnologia para uso de sua nuvem ou ferramentas de IA, acesso gratuito ou ao baixo custo de salas de reuniões e outros benefícios tangíveis. Mas, não destacam o intangível e o mais difícil, que é a mentoria de alto valor agregado.

Mentoria é o “core” do valor que deve ser proporcionado pelas aceleradoras e muitas são fracas exatamente nisso. Lembre-se que uma startup em fase de aceleração enfrenta muitos obstáculos e turbulências. Para superá-los é que a ajuda de mentores experientes é muito importante. Mas, como os obstáculos são muito variados, impossível um único mentor conseguir ajudar em tudo. Você vai precisar de alguns, com expertises diferentes.

No processo de escolha de aceleradoras, analise atentamente a equipe de mentores e o tempo de dedicação que eles poderão prover. A aceleradora deve prover um pool de mentores experientes, de modo que as startups possam selecionar os que melhores se adequem à suas necessidades. Esse é um tópico de muita importância na sua análise de aceleradoras. Escolha as que podem prover conexões relevantes aos seus objetivos. Por exemplo, se sua startup é uma B2B voltada ao setor financeiro, o ideal é ter mentores que possam abrir portas nesse mercado. Se você estiver no setor agronegócios, deve buscar aceleradoras com fortes conexões no ecossistema do setor.

Os melhores mentores são aqueles que tem conhecimentos valiosos para o setor específico de atividade da startup e cria uma relação de longo prazo com o empreendedor e o projeto. Os melhores mentores são os que estão convencidos em arriscar seu próprio dinheiro para investir na empresa. Ou seja, os melhores mentores são os que tem algo a perder ou a ganhar quando dão seus conselhos!

Muitas aceleradoras propõem basicamente uma mentoria estilo “sala de aula” com palestras que pretendem ensinar o empreendedor a empreender. Mas, na minha opinião, essa fase deveria acontecer antes da aceleração. Agora você já é empreendedor e ouvir frases de efeito  não vai gerar valor nenhum. As palestras que podem sim, agregar valor, são aquelas relacionadas com assuntos específicos como uma eventual mudança na legislação que impactará o negócio das startups e uma palestra de um advogado especialista poderá ser muito útil.

Veja se a aceleradora cria e incentiva a comunidade de startups atuais e as que já passaram por ela, a se relacionarem. Fuja de uma aceleradora que tenta controlar as interações, posicionando-se como o elo central.

Analise o modelo de gestão da aceleradora. Seu corpo executivo é experiente na aceleração de startups e tem realmente condições de assumir a liderança de um negócio que vai definir o destino de sua startup? Estão realmente engajados e acessíveis? A aceleradora tem um processo de aceleração bem definido e testado na prática?

Veja também o ambiente físico, se é energético e propício à troca de informações e conexões, e, principalmente, fale com startups que já foram aceleradas, para obter seu feedback.  E não esqueça do Demo Day, evento quando as startups aceleradas têm a chance de se apresentar a um público de investidores em potencial. Veja se os investidores que apareceram nas anteriores (e os que virão ao seu Demo Day) tem o perfil adequado às suas demandas de investimento. Também conta ponto se o relacionamento da aceleradora com as startups não se encerra no Demo Day.

Pense cuidadosamente em quais são suas necessidades e aplique-se às aceleradoras que melhor atendem a elas. E lembre-se: não há nenhuma “melhor aceleradora do mundo”. Cada uma tem seu valor. Além disso, as aceleradoras são também startups e como toda startup, sua taxa de sobrevivência não é alta. Na prática, são startups de aceleração de startups. O resultado financeiro delas é a valorização das startups aceleradas, pelas quais ela tem participação e essa realização se dá no longo prazo, de 4 a 7 anos. Assim, muitas aceleradoras ainda não mostraram o valor do investimento e, portanto, ainda não são negócios consolidados.

Bem, você já pode fazer sua pesquisa. Mas, no final, a escolha errada ou certa que você faz é que definirá o futuro de sua startup. E lembre-se, que entrar em uma aceleradora não é garantia de sucesso. Ela pode apenas acelerar o sucesso que ainda está embrionário. O sucesso depende de você e sua equipe. Boa sorte!

por Cezar Taurion

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Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). Na sua carreira, entre outras atividades, foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil e sócio-diretor e  líder da prática de IT Strategy da PwC. É autor de nove livros e professor convidado da Fundação Dom Cabral. Foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

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*Cezar Taurion é Partner e Head of Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral. Antes, foi professor do MBA em Gestão Estratégica da TI pela FGV-RJ e da cadeira de Empreendedorismo na Internet pelo MBI da NCE/UFRJ.

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